O Brasil vai fechar a safra 2025/26 com produção agrícola recorde de 357,97 milhões de toneladas, segundo o 8º Levantamento da Safra da Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB) divulgado em maio de 2026. O número supera em mais de 6% a colheita do ciclo anterior e consolida o país como maior produtor mundial de soja pelo sétimo ano consecutivo.
A soja nacional chegou a 180,1 milhões de toneladas, alta de 5% em relação ao ano anterior e o primeiro ciclo a cruzar a marca de 180 milhões — resultado do clima favorável nas principais regiões produtoras e da expansão das lavouras no Matopiba e no Centro-Oeste.
O paradoxo mato-grossense
Mato Grosso, maior estado produtor do país, puxou parte desse crescimento: o estado deve responder por cerca de 37% da produção nacional de soja. Mas o mesmo estado que lidera o ranking da oleaginosa enfrenta uma frustração específica no milho safrinha.
A segunda safra de milho — plantada em sucessão à soja, entre janeiro e fevereiro — registrou queda de produtividade de 4,2% no Centro-Oeste, segundo o levantamento da CONAB. A causa identificada é o déficit hídrico em janelas críticas do ciclo vegetativo, especialmente nos estágios de polinização e enchimento de grãos, entre fevereiro e março de 2026.
Chuvas abaixo da média histórica nesses meses atingiram lavouras no sul e leste do estado, justamente as regiões que concentram a maior parte do milho safrinha mato-grossense.
A vulnerabilidade da integração soja-milho
Mato Grosso vive um paradoxo estrutural: o mesmo cerrado que oferece luz solar e solos corrigidos para recordes de soja é vulnerável à irregularidade pluviométrica que compromete o milho safrinha. O estado produz os dois grãos em sucessão — soja no verão, milho no outono —, e qualquer atraso no encerramento da colheita da soja empurra a janela de plantio do milho para além do período chuvoso adequado.
Em 2026, embora a soja tenha evoluído bem, as chuvas irregulares de fevereiro e março comprometeram o desenvolvimento do milho em diversas regiões, ampliando o impacto do estresse hídrico em período reprodutivo.
Como produtores estão reagindo
A queda na produtividade do milho 2ª safra motivou mudanças táticas entre agricultores mato-grossenses. Três estratégias ganham força para a próxima temporada, segundo o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (IMEA) e a Aprosoja-MT:
- Irrigação no milho safrinha: o uso de pivôs centrais, já consolidado na soja irrigada, começa a ser avaliado para o milho safrinha em propriedades com infraestrutura disponível. O custo adicional de energia e instalação ainda é o principal entrave à adoção em escala.
- Híbridos tardios tolerantes ao déficit hídrico: produtores buscam materiais genéticos com maior capacidade de suportar veranicos sem queda acentuada de produtividade, especialmente em ciclos plantados após 20 de janeiro.
- Milho 1ª safra como hedge: cresceu o interesse pelo plantio do milho verão em parcelas menores das propriedades, como diversificação que escapa da dependência do regime de chuvas do outono.
Soja garante o recorde nacional
Enquanto o milho preocupa, a soja sustenta o otimismo do setor. A produção de 180,1 milhões de toneladas representa a maior marca histórica para o grão no Brasil, impulsionada por ganhos de produtividade em Mato Grosso, Paraná e Goiás. O volume exportado deve acompanhar o crescimento, com o mercado chinês como principal destino — responsável por cerca de 70% das exportações do grão.
A CONAB também registrou desempenho positivo no algodão, no arroz e no café, contribuindo para o recorde agregado. A safra de inverno, ainda em andamento no Sul do país, pode elevar ainda mais o número final acima de 357,97 milhões de toneladas até o fechamento oficial do ciclo.
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