Ainda faltavam quatro dias para o fechamento de maio quando o Brasil já havia superado toda a receita com exportações de carne bovina registrada no mesmo mês do ano anterior. Os dados parciais do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) revelam que, até o dia 26 de maio de 2026, as vendas externas de carne bovina acumularam US$ 1,321 bilhão — um desempenho histórico que coloca 2026 como um dos melhores anos da pecuária brasileira nas últimas décadas.
O preço médio obtido pelos exportadores chegou a US$ 6,46 por quilograma, o patamar mais elevado desde julho de 2022, de acordo com registros da Secretaria de Comércio Exterior (Secex/MDIC). A combinação de volume e preço elevado indica que o setor atravessa um momento de demanda externa sólida — e Mato Grosso, com o maior rebanho bovino do Brasil, está no centro desta expansão.
Um mês que já é recorde antes de terminar
A antecipação do recorde é o dado mais expressivo do desempenho de maio. Quando o mês ainda não havia se encerrado, as exportações já acumulavam mais dólares do que em todo o mês de maio do ano anterior. Trata-se de uma combinação incomum: alta no volume físico exportado e alta simultânea no preço unitário — o que amplifica a receita de forma significativa.
O preço de US$ 6,46/kg representa valorização expressiva frente à média histórica dos últimos anos e sinaliza que os mercados compradores — China, Estados Unidos e União Europeia entre os principais — mantêm demanda firme pela proteína animal brasileira. A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC), que publica relatórios mensais detalhados sobre o setor, contextualiza o movimento dentro de um ciclo de expansão que vem se sustentando desde 2023, quando o mercado chinês se reaqueceu após restrições sanitárias.
Mato Grosso: epicentro do rebanho nacional
Com mais de 31 milhões de cabeças de gado, Mato Grosso concentra o maior rebanho bovino do Brasil. O estado abriga também um parque frigorífico exportador dos mais relevantes do país — unidades habilitadas para o mercado externo que dependem diretamente da disponibilidade e qualidade do gado local.
O preço recorde por quilo na saída do Brasil tem efeito direto na cadeia produtiva mato-grossense. Produtores rurais que vendem para frigoríficos exportadores se beneficiam da valorização do boi gordo no mercado interno, que tende a acompanhar as cotações externas. Com mais dólares por quilo exportado, a pressão sobre o preço do boi vivo no campo aumenta — favorecendo a receita dos pecuaristas.
A estrutura logística do estado, que inclui o corredor da BR-163 e terminais ferroviários, posiciona Mato Grosso como hub natural para o escoamento de proteína animal com destino aos portos de Paranaguá, Santos e Itajaí.
Por que o preço está tão alto?
A combinação de fatores que explica o patamar de US$ 6,46/kg inclui elementos de oferta e demanda em escala global. Do lado da oferta, países competidores como Argentina e Austrália enfrentaram nos últimos anos problemas climáticos e sanitários que reduziram sua participação no mercado internacional. O Brasil preencheu parte desse vácuo.
Do lado da demanda, a China — maior compradora de carne bovina brasileira — mantém importações em volume elevado, sustentadas pela recuperação do consumo interno e pela redução do rebanho bovino chinês em anos recentes. A Agência Brasil tem registrado o avanço das exportações como parte do desempenho favorável do agronegócio brasileiro em 2026, com destaque para a proteína animal.
O mercado norte-americano também absorve volumes crescentes de carne bovina brasileira, beneficiando-se da diferença de preço em relação à proteína de origem doméstica norte-americana.
Perspectivas para o restante do ano
Com a receita de US$ 1,321 bilhão até o dia 26 de maio, o setor caminha para um dos meses mais fortes da série histórica recente. O ritmo sugere que o ano completo pode superar recordes anteriores, caso o preço médio se mantenha em patamares similares.
O MDIC publica os dados de comércio exterior de forma contínua, e os números finais de maio deverão ser divulgados nas primeiras semanas de junho. Para o segundo semestre, a perspectiva do setor é de manutenção dos preços elevados, desde que não haja intercorrências sanitárias ou mudanças abruptas na demanda dos principais parceiros comerciais.
A ABIEC monitora os mercados de destino de forma contínua e publica relatórios mensais com o desempenho detalhado por categoria de produto e destino — a consulta ao portal da entidade permite acompanhar a evolução mês a mês.
Mato Grosso e o agronegócio nacional
O desempenho das exportações de carne bovina em maio reflete uma tendência mais ampla de fortalecimento do agronegócio mato-grossense. O estado já lidera a produção nacional de soja e milho, e a pecuária representa a terceira grande commodity que ancora sua economia. A simultaneidade de bons preços em proteína animal e grãos cria um cenário de receita raramente visto no campo mato-grossense.
O impacto se distribui pela cadeia produtiva: frigoríficos ampliam turnos, transportadoras de carga frigorificada operam com capacidade plena, e portos do Sul e Sudeste registram movimento crescente de contêineres refrigerados. Para os municípios mato-grossenses com vocação pecuária — como Juara, Paranatinga, Cláudia e Sorriso —, o cenário se traduz em maior arrecadação de ICMS e aquecimento da economia local.
Fontes: MDIC/Secex — Balança Comercial | ABIEC — Exportações de Carne Bovina | Agência Brasil — Economia
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